Uma briga de “gigantes” ou a democratização da comunicação?

Nessa semana deu-se início a mais uma batalha pelo controle do monopólio da televisão. A Rede Globo falou de Edir Macedo e da Igreja Universal para acusar a Rede Record, e a Record respondeu de forma rápida e agressiva, com uma história que muitas pessoas já sabiam; porém, com a audiência do Fala Brasil muito mais pessoas tiveram acesso às histórias obscuras da Rede Globo. Há um documentário que facilmente se consegue na internet, se chama “Muito Além do Cidadão Kane“. Esse documentário registra bem como a Rede Globo conseguiu chegar ao seu império midiático. Pela resposta da Rede Record, podemos perceber que eles usaram como base esse documentário. Ao meu ver, essa briga entre “gigantes” da mídia, representa apenas a luta pela audiência por outros meios, e não um debate sobre as comunicações no Brasil, isto é, um debate que discuta a legitimidade de uma ou outra. Não se discute, por exemplo, às concessões de televisão como um bem público, não se discute as relações entre religião, política e mídia, para se ter uma ideia, grande parte das concessões de televisão e rádio estão nas mãos de religiões ou políticos ligados a algum partido – os velhos coronéis do senado, têm as suas rádios ou televisões. Hoje mesmo li no jornal Correio do Povo que um filho do Renan Calheiros ganhou uma concessão de rádio. Digo ganhou, pois é isso mesmo, concessão se ganha de presente, e com certeza é um ótimo presente para quem quer comandar um Estado, não se discute o papel político – no bom sentido da palavra -, mas se dá concessões para quem “quiser”. Quero citar um exemplo do quanto é injusto esse sistema de concessões. Desde 2001 eu trabalho com Comunicação Comunitária, e nesse mesmo ano comecei a trabalhar na Rádio Comunitária da Restinga, uma rádio que tinha protocolado um pedido de concessão de rádio comunitária junto ao Ministério das Comunicações em 1998. A rádio tinha um ótimo trabalho comunitário, na sua grade de programação tinham 24 programas todos desenvolvidos por moradores do bairro, todos os locutores eram voluntários, faziam aquilo porque acreditavam. Em 2004, após 6 anos de espera por uma concessão, a rádio foi fechada pela Anatel – éramos criminosos. Isso demonstra o quanto as concessões de mídia são pouco avaliadas no que diz respeito ao bem comum, para mim, o fechamento de rádios comunitárias, efetivamente comunitárias, é uma afronta à democracia que todos juram defender – hipocritamente, nenhum dono de empresa de comunicação é contrário a liberdade de expressão, porém, se diz uma coisa e se faz outra. muitas empresas de mídia constantemente chamam rádios comunitárias de rádio pirata – mas pitaras são eles que estão atrás do ouro! Voltando ao caso da Record contra a Globo, acredito que essa briga entre as empresas de midia é apenas para ocupar o primeiro lugar no controle dos meios de comunicação. Nesse sentido, a única esperança que tenho, é na I Conferência Nacional de Comunicação, que, pelo que sei, depois de muito insistência, vai sair . Quem sabe mude um pouco essa vergonhosa situação do país. A democratização da comunicação é muito mais do que dar ao público o prazer de assistir outra novela, ou outro Big Brother, ou outro Jornal Nacional, ou outro Faustão, é poder propiciar para a população o acesso aos meios de produção de mídia, é poder incentivar as produções locais de cultura e etc, e, além disso, é poder aceitar o movimento de rádios livres e comunitárias como movimentos legítimos e não como criminosos. A final de contas, tanto a Record, quanto a Rede Globo, são contra às rádios comunitárias, e com certeza sempre assinam embaixo quando uma rádio é fechada… Acho que os criminosos estão brigando por ai, controlando grandes empresas de comunicação ou nos “representando” em Brasília ou por esses pagos… E que veja quem tem olhos de ver, amém…

Marcos Goulart

Um pouquinho de história…

Transmissor esfriando a cabeça

Transmissor esfriando a cabeça

RESISTINGA! Essa palavra ecoou por algum tempo nas ondas da Rádio Comunitária da Restinga. Por ora, éramos anarquistas que falavam da Coca-cola – uma ouvinte nos pôs em contradição sem entender a nossa ironia com o “vai bizonho”. Em outro momento, éramos parte de um movimento de reorganização da rádio: nós de um lado e o grupo dos 5 de outro. Por fim, a voz silenciou… Voltamos, saimos pelas ruas da Restinga, com uma caixa de som e dois microfones a tira-colo – rádio poste, eis a novidade! Era final de 2004, peregrinamos pelas escolas, fizemos oficinas, transmissões de rádio, rádios postes na feira da Restinga. Em 2005, ganhamos um brinquedinho vindo de terras estrangeitas, um doce e prateado amigo, que só esfriava a cabeça com um ventilador e só parava de xiar quando esfregávamos os dedos em seu lombo. Era março de 2005, a primeira transmissão da rádio cozinha – o quê? Em plena conversa sobre o dia da mulher? Eramos intempestivos, agiamos no impulso, transmitimos… do primeiro programa só as lembranças, e o doce suspiro de quem fez parte daquela história. Hoje é Rádio Quilombo, fruto de um processo de maturidade do grupo – estamos mais velhos, mas jovialmente incontentes. A Restinga ganhou nova cara, ela realmente se fez negra – aquilo que sempre foi -, hoje ela é forte, com novos rostos negros, novos zumbis em conexão com o mundo… Vida longa à Rádio Quilombo.

Marcos Goulart

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