História da Rádio Quilombo Fm

Por Rafael Escurus é uma outra proposta!É uma outra Abordagem!


No dia 24 de março de 2007, um projeto alternativo de rádio ocupava o seu espaço no espectro eletromagnético. A voz da teimosia ganhava os ares e era possível de ser ouvida através dos aparelhos de rádio dos moradores e moradoras da Restinga, na zona sul de Porto Alegre. Trata-se da Rádio Quilombo FM 88.3. Emissora livre e comunitária sediada em um dos maiores bairros periféricos da capital do Rio Grande do Sul. Experiência com uma curta história, porém vivida de maneira intensa pelos seus protagonistas. E sobre a qual recai a responsabilidade de continuar uma vocação de luta existente nessa comunidade, de modo que não se perca nunca. Se um dia fosse escrita a história da Rádio Quilombo, certamente ela deveria começar por outra experiência de comunicação comunitária do bairro, estou falando da Restinga FM. Uma rádio comunitária, fundada em meados da década de 90, que funcionou até o seu fechamento forçado, durante uma invasão da ANATEL e a Polícia Federal, no mês de agosto de 2004. O perfil da Restinga FM não diferia do de muitas outras rádios comunitárias brasileiras. Grande diversidade etária, social, partidária e ideológica, além de várias outras diferenciações que se possa imaginar. Aí, nesse caldo, se encontrava o grupo que mais tarde, junto a novas pessoas, começaria o projeto da Rádio Quilombo. Devido a confluência de interesses inseridos nesse primeiro projeto de comunicação comunitária, não é difícil imaginar que os embates eram constantes. As assembléias da emissora eram freqüente palco de discussões, às vezes mais acaloradas, às vezes menos. Às vezes mais qualificadas politicamente, outras nem tanto. É possível imaginar que tamanha riqueza de sujeitos sociais seria terreno fértil para um longo e forte trabalho comunitária. Porém não funcionava assim. Os interesses eram tão dispares que incluíam os programas sensacionalistas e fascistóides de um policial militar, mais os dos militantes da Resistência Popular/RS, uma corrente político-social que tem a Restinga como um local de inserção. Aliás, foi após uma ação de protesto, organizada por este grupo e que contou com a cobertura da rádio, contra a falta de médicos em um posto de saúde do bairro, que a ANATEL e a polícia federal invadiu a emissora. Não se sabe se um fato tem ligação com o outro, porém foi o que ocorreu, em junho de 2004. Depois da “visita” recebida pela emissora, por parte dos órgãos de repressão, era de se esperar a subseqüente fragmentação daquele conjunto de sujeitos agrupados em torno do trabalho da Restinga FM. Ou em torno de um aparelho de rádio transmissão, para ser mais exato. Uma vez que o mesmo já não existia mais, cada um “pegou o seu rumo” e a rádio comunitária se desfez. Não existia clima para fazer uma luta pela recuperação do transmissor ou qualquer coisa que o valha. Um grupo de comunicadores da antiga Restinga FM, mais identificados com as lutas populares, decidiu não deixar morrer essa experiência de comunicação e outra rádio deveria ser aberta no bairro. Apesar das dificuldades, ainda se tentou resgatar a emissora anterior, inclusive com a participação em uma ocupação ao prédio da ANATEL em Porto Alegre. Ação organizada pela ABRAÇO (Associação Brasileira de Rádios Comunitárias) contra a repressão às rádios comunitárias, em novembro de 2004. Porém, este grupo estava decidido a continuar a prática e a luta pelo direito a comunicação no bairro. Várias experiências foram tentadas desde então. Muitas pessoas passaram e cada uma delas deixou sua contribuição nessa construção coletiva. Nos anos de 2005 e 2006 se intensificou a experiência das rádios-poste na comunidade. Realizadas durante as feiras de sábado à tarde, no espaço conhecido como Esplanada da Restinga. Esses momentos, onde se fazia uma concentração de pessoas com um aparelho de alto-falante, serviam como espaço de apresentação da proposta de comunicação, de aproximação de gente e eram, em si, a própria prática radiofônica. O comunicador em contato com o ouvinte e vice-versa. A comunicação em duas vias, não mais como via única. O ouvinte-participante. Foi uma experiência que serviu de fortalecimento da proposta e do fazer comunicativo de cada um do grupo. Também se praticou a transmissão através de ondas, usando um transmissor doado por um grupo da Califórnia, ligado a Free Radio Berkeley. Essa experiência foi concomitante a da rádio-poste, e consistia numa transmissão mensal, batizada com o nome de Rádio Resistência FM. À medida que se ia experimentando coisas e pessoas se aproximavam, discutindo a construção de uma nova rádio comunitária no bairro, antigos comunicadores e comunicadoras da Restinga FM se aproximaram interessados no trabalho. Quando chegou o momento em que decidimos ser o mais maduro, começamos reuniões com o propósito de fundar uma nova emissora, na qual não estivesse representado somente o grupo animador inicial, mas um espectro mais amplo da comunidade. Também se queria evitar que se chegasse a uma conformação tão ampla como a da antiga rádio, a ponto de receber idéias conservadoras, contrárias a tudo que aquele grupo inicial pensava. Porque além da prática da comunicação comunitária, estava também o desejo de se organizar a luta pelo direito a comunicação, tão negado aos habitantes desse país. Nas reuniões se conversava a respeito do caráter que deveria ter a futura emissora do bairro, o melhor lugar para se instalar o estúdio, a conformação da associação, etc. Depois de muito debater, chegou o momento da escolha do nome, esse foi um aspecto interessante de toda essa experiência. No fim de 2006, chegou a idéia de se fazer uma votação na Esplanada da Restinga para elegermos o nome. Isso já serviria, ao mesmo tempo, como forma de divulgação da proposta. E lá estavam todos e todas, se organizou um quadro com algumas sugestões, dentre elas, Quilombo FM. Difícil precisar agora o número de votos que esse nome recebeu, mas, das cerca de sessenta pessoas que colocaram a sua opinião, muito mais da metade escolheu o atual nome da Rádio. O que é bem explicado por ser a Restinga uma comunidade de forte expressão da cultura negra. As transmissões começam em março de 2007, e o local escolhido foi a sede da Resistência Popular, como nenhuma outra associação ou grupo se animou a abrigar um projeto como esse, de total embate com a política dominante de comunicação. Pois se decidiu transmitir mesmo sem licença, o que na verdade não era uma coisa nova. A Restinga FM também nunca teve autorização, apesar de ter todos os documentos tramitando no ministério das comunicações. A antiga emissora da comunidade foi vitima também da imensa burocracia do estado brasileiro, quando o objetivo é dar voz ao povo. Por esse motivo, decidimos ir ao ar somente ao sábados. Pois estaríamos muito vulneráveis à ação da repressão se funcionássemos todos os dias, como era o caso da emissora anterior do bairro. A qual, além do mais, funcionava em um prédio público, em uma sala do CECORES (Centro Comunitário da Restinga), administrado pela prefeitura de Porto Alegre. A ação da polícia federal contou com o apoio incondicional da guarda municipal, que cuidava o local. Desde então, segue-se nesse caminho, de fortalecimento de uma ferramenta comunicacional a serviço das lutas e da cultura do bairro. Diversos grupos musicais passam todo fim de semana pelo estúdio da Quilombo FM, além de militantes comunitários, representantes de associações, jovens, idosos, etc. Além da preocupação com a transmissão e prática de rádio, também existe a proposta de construir a emissora também como uma escola de comunicação comunitária. Com esse objetivo já se desenvolveram projetos com jovens da comunidade, os quais inclusive participam da programação e ajudam enriquecer ainda mais essa experiência coletiva de vida. Dessa forma a Rádio Quilombo FM, da Restinga, possui aspectos muito semelhantes ao de uma chamada Rádio Livre. Porém encravada numa comunidade e tentando dar voz a ela. Trata-se de uma experiência em plena construção, que esperamos dure muito tempo. Seguem-se as discussões, entre elas, a de formar uma associação e de pleitear uma licença, mas sabe-se em que caminho se está, com quem andar e, mais ou menos, onde queremos chegar, que é numa sociedade onde a comunicação não seja privilégio para uns poucos donos de empresas, com muito dinheiro. 


Artigo Professor Rafael Costa!

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